sábado, 2 de setembro de 2017

Fajã dos Padres ou o paraíso perdido

Um lugar especial, esta fajã. Imagino que para quem nunca visitou as fajãs de São Jorge, nos Açores, a estranheza ainda seja maior. Interdita a acrofóbicos ou claustrofóbicos, o acesso é feito por teleférico. Mesmo quem não padeça de nenhuma destas patologias impressiona-se facilmente. Não há como ficar indiferente a esta escarpa. Não sei porquê, escassos minutos neste teleférico impressionam mais do que mais tempo noutra cabine noutro lugar. Deve ser da descida a pique. E do descampado da vista. 
Ao aterrarmos, não vemos vivalma. Vamos andando, à descoberta. Passamos por bananeiras (muitas), por vinhas e por muitas lagartixas, umas mais afoitas do que outras. Paramos para admirar as vistas e as flores. Há estrelícias por todo lado, ou não fosse esta, juntamente com a protea, a flor da Madeira. Passamos por hortas cultivadas e seguimos as placas toscas, em direção ao restaurante. Instalamo-nos na esplanada, à beira da falésia, sempre de olho nas lagartixas (apesar de o meu filho as achar fofinhas, prefiro distância destes bichinhos). A funcionária, num madeirense cerrado, traz-nos a ementa. Para começar, pedimos lapas e bolo do caco, acompanhados com cerveja Coral. Vamos saboreando aquele momento  (eu, sempre de olho nas lagartixas). A seguir, mais comida local: peixe das águas que estão mesmo à nossa frente e verduras das hortas por onde passámos. No fim, ninguém tem estômago para sobremesa. Até porque queremos mergulhar naquele mar transparente que nos chama, lá de baixo.
Depois de um banho refrescante, em águas frescas e cristalinas, deito-me ao sol. Olho para cima, para a ribanceira acastanhada e imponente. Paraíso perdido são as palavras que me ocorrem. Ao meu lado, os meus rapazes dormitam, nas toalhas. Fecho os olhos e aproveito o resto daquela tarde naquele lugar especial.





















segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Coisas de verão

No verão, a vida é mais fácil. Vive-se com uma fluidez que não acontece no resto do ano. Adormecemos e acordamos sem horas marcadas. Ao ritmo que o corpo vai ditando. 
Nos últimos tempos, todos os caminhos vão dar à água. Areia ou calhau. Depende da vontade. Nem sempre concordamos, mas alguém acaba por ceder. Trocam-se mergulhos e gargalhadas. Descansa-se muito. Lê-se muito. Pela casa, há verduras colhidas ao acaso. Uns galhinhos do metrosídero do jardim, uma hortência e as flores roxas que despontam nesta altura. 
As refeições acompanham o espírito simples. Carne do talho de sempre, fruta da época, temperos simples. Uma massa com pesto e está a festa feita. Ou grelhados, muitos grelhados, que é o que melhor sabe no verão. A acompanhar, vinho branco bem fresco, a estalar, como diz o meu amigo Pedro. 
Há quem já ande a deprimir porque as férias estão perto do fim. Eu prefiro aproveitar os últimos dias o melhor que posso. Mesmo que o dia esteja sombrio, como o de hoje, hei de arranjar alguma coisa para fazer. Há um livro novo à espera e tenho três toranjas a olhar para mim, prontas para serem transformadas em compota. 

Continuação de um bom verão!










Espetadas de porco e alperce
(Receita adaptada da revista Cuisine et Vins de France n.º176)





Ingredientes para quatro:
2 lombinhos de porco, cortados em cubos
8 alperces
1 haste de alecrim
1 limão
2 dentes de alho, esmagados
sal e pimenta a gosto
1 colher de sopa de manteiga
1 colher de sopa de açúcar (usei amarelo)

Lavar o limão, raspá-lo e, depois, espremê-lo para dentro de uma taça. Juntar o alho esmagado, temperar com o sal e a pimenta e juntar o alecrim, em raminhos. Envolver a carne e deixar marinar 30 minutos.
Entretanto, se usarem paus de espetadas de madeira, mergulhá-los em água, para que não queimem quando forem ao grelhador.
Cortar os alperces ao meio e tirar-lhes o caroço. Numa frigideira, caramelizá-los com a manteiga e o açúcar durante 5 minutos, virando-os a meio do tempo.
Montar as espetadas, colocando pedaços alternados de carne e alperce. Grelhá-las, em lume moderado, virando-as frequentemente, para que não queimem.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Regresso e uma espécie de esparregado

Como se volta a uma casa fechada, com pó e lençóis a cobrir os móveis, volto aqui. Acredito que, nos primeiros dias, alguém terá batido à porta. Cansados de silêncio, terão desistido. E a casa ficou à espera, fechada. Hoje é dia de abrir janelas, sacudir tapetes, limpar o pó. Será para ficar? Não sei. Veremos.



Espinafres cremosos com ricotta e noz moscada
(Receita ligeiramente adaptada de Nigellissima, de Nigella Lawson)

Ingredientes para três pessoas:
manteiga para untar (usei spray de cozinha)
1 colher de sopa de azeite
1 dente de alho, descascado e ligeiramente esmagado, com o cabo da faca
300 g de folhas de espinafre, lavadas e secas
2 colheres de sopa de vinho branco ou vermute (usei Marsala)
3 colheres de sopa de parmesão ralado
2 colheres de sopa de ricotta
pimenta preta, noz moscada e sal, a gosto
2 ovos batidos 


Preaquecer o forno a 200 graus e untar uma assadeira com manteiga ou spray de cozinha. 
Num wok ou numa panela larga, aquecer o azeite com o dente de alho, até este alourar ligeiramente. Juntar os espinafres e mexê-los, em lume brando, empurrando-os com a colher (apesar de parecerem muito volumosos, diminuem bastante depois de cozinhados). Aumentar o lume, deitar o vinho e mexer suavemente até os espinafres terem murchado (cerca de 30 segundos).
Retirar do lume, juntar o parmesão e o ricotta e temperar a gosto.
Juntar os ovos, misturar bem no preparado e verter tudo para a assadeira. Levar ao forno 15 minutos (na receita original, recomenda-se 10, mas achei pouco), deixar repousar mais 5 e servir.

Estes espinafres acompanharam bife da vazia grelhado e ovo estrelado, uma das refeições preferidas dos meus rapazes.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Crumble. De nêspera.

Há lá coisa melhor do que o cheiro da fruta a caramelizar no forno, enquanto os sucos se misturam com o açúcar, fundindo-se numa calda viscosa! Se sobre esta houver sabores estaladiços, melhor ainda. É por isso que gosto tanto de crumbles. Não é só uma questão de sabor. É sobretudo a mistura de texturas que torna este doce tão especial. 
Sabe bem olhar para o forno e ver o borbulhar lento à superfície, adivinhando o sabor da primeira colher. Daquelas coisas cuja antecipação tem quase tanta importância como a degustação.

Depois do último apple crumble, e de perceber a adoração do Manel por este doce, apetece-me experimentar outros sabores. Desta vez, usei nêsperas, um fruto que só tinha cozinhado em compota. 
Há quase duas semanas, ofereceram-me um saquinho. Pu-las no frigorífico, pois final de período e experiências culinárias que envolvam perder tempo a descascar fruta caprichosa são incompatíveis. De vez em quando, vigiava-as, ciente de que se poderiam perder. Aguentaram-se bem. O suficiente para brilharem nesta sobremesa diferente. 


Crumble de nêspera

Ingredientes:
800 g de nêsperas (sem o caroço, e cortadas em quartos)
4 colheres de sopa de açúcar amarelo 
1 colher de chá de canela
1/2 colher de café de cardamomo em pó

150 g de farinha integral
100 g de açúcar amarelo
2 colheres bem cheias de açúcar mascavado
100 g de manteiga (gelada), cortada em pedaços
1 chávena de aveia
1/2 chávena de amêndoa palitada
1/2 chávena de nozes picadas

Envolver as nêsperas com as 4 colheres de açúcar, o cardamomo e a canela e colocar a mistura num tabuleiro ou pirex. 
Entretanto, aquecer o forno a 180 graus. 
Numa tigela, misturar a farinha, os 100 gramas de açúcar amarelo e o açúcar mascavado. Juntar a manteiga, desfazendo-a, com os dedos, de modo a formar uma mistura granulada. Misturar a aveia, as nozes e a amêndoa e despejar sobre as nêsperas. Levar ao forno cerca de 40 minutos (até estar dourado). 
Tal como o crumble de maçã, pode ser servido quente ou frio. Com ou sem a bola de gelado de baunilha. 







domingo, 2 de abril de 2017

Apple crumble: um doce com "muitas coisas"

Há anos que não fazia apple crumble. A razão é simples: o meu marido não gosta. Para ele, sobremesa, para ser digna desse nome, tem de ter chocolate como ingrediente principal. Aceita um ou outro desvio, mas nada que envolva maçãs cozinhadas no forno. As tartes de maçã que já apareceram por aqui nunca foram provadas por ele.
Ontem, aproveitei a noite com o Manel para cozinhar maçãs. Uma noite de mãe e filho, a rever O Senhor dos Anéis, com um pratinho de apple crumble morno numa mão e uma caneca de chá na outra.
O Manel adorou. Há aqui muitas coisas, disse ele, ao saborear a primeira colher. Há, de facto. A minha versão leva aveia e amêndoa e canela e sabe bem sentir todas aquelas texturas quando metemos a colher na boca. 
Comemos o nosso crumble simples, ainda morno. Noutras circunstâncias, poderíamos ter-lhe acrescentado uma bola de gelado de baunilha. Outro contraste muito bom, para os (ainda) mais gulosos.

Fica a receita. E as flores. Na semana passada, frésias. Esta semana, muitas proteas, oferecidas por uma menina muito querida, que as produz. Juntaram-se às que já estavam nas jarras e fizeram um festim. E as minhas orquídeas, que desabrocharam quase todas, com a chegada da primavera. 










Apple crumble


Ingredientes:
3 maçãs reineta
2 colheres de sopa de açúcar amarelo 

150 g de farinha integral
100 g de açúcar amarelo
100 g de manteiga (gelada), cortada em pedaços
1 colher de chá de canela
1 mão-cheia de aveia
1 mão-cheia de amêndoa palitada

Descascar as maçãs, cortá-las em quartos e depois em fatias não muito finas (dependerá do gosto de cada pessoa, mas eu gosto de sentir os pedaços de maçã). Envolvê-las com as 2 colheres de açúcar e colocar a mistura num tabuleiro ou pirex. 
Entretanto, aquecer o forno a 180 graus. 
Numa tigela, misturar a farinha, a canela e os 100 gramas de açúcar. Juntar a manteiga, desfazendo-a, com os dedos, de modo a formar uma mistura granulada. Misturar a aveia e a amêndoa e despejar sobre a maçã. Levar ao forno cerca de 40 minutos (até estar dourado). 
Servir quente ou frio. Fica muito bom acompanhado de uma bola de gelado de baunilha. 



Continuação de um bom domingo!


domingo, 19 de março de 2017

Primavera. E uma receita com coco em dia do pai.

O calendário diz que é só amanhã. Mas eu estou pronta. Nunca estive tanto. Quero que este inverno acabe e que a primavera chegue, com todas as coisas que lhe estão associadas. As flores e os pássaros e todos os sinais que a ilustram em livros infantis e poemas ultra-românticos. Com as flores e o verde, quero que venham todas as outras coisas que simboliza. A calma,  a renovação, a esperança.

Enchi a casa de flores. Às de todo o ano, juntam-se outras, da estação. As do jardim acompanham as vindas do sítio do costume. Já há frésias. Sempre uma alegria quando vejo as primeiras.  Junto-lhes gerberas e proteas. Do jardim, vêm jarros e margaridas. Está composto o ramalhete. Que bem que ficam, todas juntas, a cantar a uma só voz. Na cozinha, voltou a vontade de misturar, de experimentar.  E de brincar com ingredientes menos comuns. Esta manhã, não resisti aos ovos de codorniz que encontrei na praça. Que lindas que são aquelas miniaturas pintadas de preto! Parece-me que hão de ficar bonitos a encimar uma pizza. 

Sabe bem cozinhar ao som de uma música bonita, numa tarde de domingo. Hoje foi esta, muito linda, banda sonora de uma das séries que nos têm acompanhado
Aos poucos, a primavera volta. É sempre assim, felizmente.

Deixo-vos as flores. E a música. E o trailer da série. E a receita dos queques de coco que fiz para o meu pai.














Queques de coco
(Receita adaptada daqui)

Ingredientes para 12 unidades:
1 ovo batido
1/2 chávena de leite
1/4 chávena de óleo
1 colher de chá de extrato de baunilha
1/2 colher de chá de sal
2 colheres de chá de fermento para bolos
1/2 chávena de açúcar
1 chávena de coco ralado 
1 chávena e meia de farinha
coco a gosto para polvilhar os queques

Preparação:
Numa taça grande, bater o ovo. Juntar-lhe o leite, o óleo, a baunilha e mexer bem. Juntar os restantes ingredientes, mexendo até estarem todos bem incorporados.
Forrar um tabuleiro de queques com forminhas de papel e enchê-las até 2/3. Polvilhar com coco e levar ao forno, a 180 graus, cerca de 25 minutos.




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